Investigadores portugueses ajudam a criar mapa cerebral de risco de doenças psiquiátricas

Investigadores portugueses ajudam a criar mapa cerebral de risco de doenças psiquiátricas

Estudo com com a participação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), desenvolveu mapas de risco genético para doenças psiquiátricas com base em imagens da estrutura do cérebro e numa técnica de biologia molecular que analisa a expressão de genes num determinado momento.

Joana Bénard da Costa - RTP /
Shawn Day / Unsplash

"Este trabalho revela como o risco genético para doenças psiquiátricas se organiza no cérebro humano e se relaciona com alterações estruturais cerebrais observadas em neuroimagens", explica Daniel Martins, professor e investigador na área das Neurociências, citado num comunicado da FMUP enviado às redações esta segunda-feira.

Os investigadores utilizaram um método inovador que integra dados genéticos de larga escala e a neuroimagem para analisar sete doenças psiquiátricas, incluindo depressão, esquizofrenia, perturbação de hiperatividade/défice de atenção (PHDA), autismo e perturbação obsessivo-compulsiva.

O objetivo, adianta o investigador, era "compreender por que certas regiões cerebrais são mais vulneráveis em cada uma das doenças psiquiátricas".

Embora estas doenças tenham múltiplas causas que resultam da interação entre fatores genéticos, ambientais e do neurodesenvolvimento, as abordagens tradicionais tendem a analisar a suscetibilidade genética e as alterações neuroanatómicas separadamente. 

O novo estudo permite, por isso, "projetar o impacto do risco genético no espaço do cérebro, com base em mapas de risco derivados da expressão génica. Esta abordagem estabelece uma ponte direta entre genes, processos moleculares e alterações anatómicas observadas por ressonância magnética", explica Daniel Martiins.

“As alterações estruturais do cérebro observadas em algumas doenças psiquiátricas não surgem ao acaso, mas refletem, em parte, a organização molecular do próprio cérebro. Na depressão major e na esquizofrenia, por exemplo, há uma correspondência clara entre padrões de expressão génica associados ao risco genético e as regiões cerebrais mais afetadas”, acrescenta.

Segundo o docente da FMUP, os resultados indicam ainda que diferentes doenças psiquiátricas parecem envolver mecanismos biológicos distintos. "Enquanto a depressão e a esquizofrenia mostram forte envolvimento de vias imunitárias e inflamatórias, a PHDA apresenta maior associação a processos de neurodesenvolvimento". 

O investigador defende que esta abordagem não é reducionista e que "os genes não determinam isoladamente a doença, antes interagem com fatores ambientais, desenvolvimento e experiência ao longo da vida".

Publicado na revista científica Molecular Psychiatry, do grupo Nature, o estudo envolveu também investigadoores do King’s College London (Reino Unido), Universidade Goethe (Alemanha) e Universidade de Padova (Itália).


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